Psiconeuroimunologia e Doenças Crónicas

(Texto Adaptado por Manuel da Fonseca - Original de Leo Priumboom, Tom Fox, Markus Stark, Sebastian Schwarz)

Pessoas que vivem em países desenvolvidos sofrem de várias pandemias: doenças crónicas não transmissíveis, como maleitas cardiovasculares, obesidade, diabetes, patologias auto-imunes, distúrbios do sistema nervoso e cancro. Os pacientes recebem, normalmente, tratamentos farmacológicos, fisioterapia e outras intervenções clínicas baseadas apenas nos sintomas que apresentam. Estes tratamentos parecem eficazes no início, mas são menos eficazes a longo prazo. Compreender o que provoca as doenças crónicas não transmissíveis, poderá abrir novos horizontes no que toca ao seu tratamento.

A inflamação de baixo grau, causada por sinais de perigo interno e externo, juntamente com a resistência a uma ampla gama de substâncias de imuno-regulação, poderá explicar parte do aumento dramático das doenças crónicas não transmissíveis, tanto nos países desenvolvidos, como nos países em vias de desenvolvimento. O grupo de doenças crónicas não transmissíveis (DCNT), que incluem as doenças cardiovasculares (principalmente as doenças cardíacas, acidentes vasculares e derrames), alguns tipos de cancro, doenças respiratórias, diabetes tipo 2, doenças mentais e doenças auto-imunes, afetam pessoas de todas as nacionalidades e classes sociais e estão a atingir características de epidemia de proporções mundiais. As DCNT constituem a maior percentagem global de morte e incapacidade, sendo responsáveis por cerca de 60% das mortes em todo o mundo.
Aproximadamente, 80% das mortes por doenças crónicas, ocorrem em países de baixo e médio rendimento e são responsáveis por 44% das mortes prematuras em todo o mundo.
Estima-se que o número de mortes causadas por estas doenças, é o dobro do número de mortes que resultam de uma combinação de doenças infecciosas (incluindo HIV/ SIDA, tuberculose e malária), condições maternas e perinatais e deficiências nutricionais.

 

O Papel da Inflamação Crónica
De uma perspectiva histórica, a inflamação tem sido considerada uma resposta natural do hospedeiro, face a um episódio agudo ou infeccioso, enquanto que a inflamação crónica é vista como um sinal de infeção crónica. Tornou-se evidente que o baixo grau de inflamação crónica é um agente chave na patogénese da maioria das DCNT. É cada vez mais atribuído o papel da inflamação, tanto ao nível da patogénese da aterosclerose, assim como fator chave na resistência à insulina. O baixo grau de inflamação crónica é caraterizado pelo aumento dos níveis sistémicos de algumas proteínas, nomeadamente, citocinas e proteína c - reactiva (PCR) e uma série de estudos tem confirmado uma associação entre o baixo grau de inflamação sistémica e a aterosclerose (Hamer, 2009), inflamação de baixo grau e diabetes tipo 2 e ou obesidade (Kolb, 2009), inflamação de baixo grau e depressão (Letho, 2009; Miller, 2009; Hamer, 2009), o aumento do síndrome da permeabilidade intestinal (Gareau, 2008) e até mesmo o "síndrome de burn-out" (esgotamento) tem sido associado com este tipo de inflamação de baixo grau (Von Kanel, 2008).
Existem evidências científicas que consideram que a resistência do sistema imunológico ao cortisol, catecolaminas, insulina e/ou leptina, precedem o processo inflamatório crónico de baixo grau (Seematter, 2004); outra evidência é a de que este tipo de resistências é considerado a causa de inflamação crónica (Mathur, 2008; Fernandez-Real, 2002).
A inflamação crónica sistémica de baixo grau, bem como a resistência hormonal, parecem ser o denominador comum dos pacientes que apresentam DCNT, seja qual for a ordem de aparecimento. A resistência hormonal do sistema imunitário (e outros tecidos) e a ativação imune crónica pode ser causada por vários fatores de risco, incluindo o stresse precoce, traumas, stresse crónico do dia a dia, rejeição social, desnutrição, mau funcionamento metabólico, falta de exercício e baixa exposição solar (deficiência de Vitamina D). A desnutrição inclui o uso de nutrientes com um alto índice glicémico e uma baixa densidade de micronutrientes, uma dieta com elevada carga de acidez (pH baixo), baixa concentração de fibras, carência de determinados ácidos gordos (DHA, EPA. AA) e Vitamina D, da elevada ingestão de álcool, fontes nutricionais ricas em frutose, nutrientes com moderada ou alta carga de micotoxinas, lecitina e certos nutrientes contendo saponinas (Pruimboom, 2009; Cordain, 2005).
Pode considera-se que a inflamação crónica não só constitui um perigo para a saúde física, como também pode afetar a libido, a fertilidade e o próprio comportamento (Pruimboom, 2011).
O aumento da atividade do sistema imunológico inato que leva à inflamação de baixo grau, pode ser considerado normal na maioria dos casos. O sistema imunológico é, no fundo, um sentido (Blalock, 2007). A perceção dos sentidos permite informar o hospedeiro sobre o perigo externo ou interno, e todos os sentidos estão ligados através do sistema nervoso simpático (SNS). A perceção de um perigo externo por um dos cinco sentidos externos, irá ativar o SNS e induzir o funcionamento do sistema imune inato. Portanto, o sistema imunológico não faz qualquer diferença entre os ataques virais eos problemas financeiros.

 

A Importância da Mucosa Intestinal
Um dos fatores mais universais, responsável pelo grau de inflamação crónica, é o fenómeno do aumento da permeabilidade intestinal (IIP, Cordain, 1999).
Quando existem lesões ao nível da mucosa de revestimento intestinal, dá-se um aumento da entrada de toxinas na circulação sanguínea e linfática. Estas toxinas produzem uma reação no sistema imune inato, que funciona como sistema de proteção, e por isso, normal.
Existem vários fatores que poderão contribuir para a danificação da barreira de revestimento do organismo, facilitando a infiltração de detritos, como o LPS bacteriano. O aumento da permeabilidade das mucosas, nomeadamente do intestino, da boca e da pele, pode contribuir para a perda da chamada tolerância imunológica. Esta perda de tolerância produz reações adversas contra a produção, absorção e metabolização normal dos nutrientes de aporte diário (Eigenmann, 2009). Um bom exemplo do impacto da perda de tolerância oral, é o dos pacientes que sofrem de intolerância ao glúten. O glúten parece produzir reações alérgicas desde o momento da quebra das barreiras oral e intestinal (Meresse, 2009); outra patologia que recentemente tem sido relacionada com a perda de tolerância oral é a artrite reumatóide.
As pesquisas de Smolik (Smolik, 2009) mostram uma relação direta entre a artrite reumatóide e a periodontite, enquanto que a periodontite parece preceder a artrite reumatóide com alguns anos de antecedência.
Existem alguns tipos de nutrientes que produzem efeitos danosos sobre os tecidos de revestimento que criam o efeito barreira, que devem ser considerados como agentes causais para o desenvolvimento de distúrbios e inflamação de baixo grau. Vários compostos nutricionais têm sido considerados como tóxicos, incluindo as lecitinas presentes nos cereais e leguminosas (Esmaillzadech, 2007; Cordain, 2000; Turston,1996), as saponinas presentes numa variedade de nutrientes, tais como o amendoim, soja e feijão (Gao, 2006; Patel 2005; Francis, 2002); A gliadina (proteína do glúten) é talvez a substância mais investigada em termos nutricionais, que se relaciona com o aumento da permeabilidade intestinal, inflamação e doenças crónicas (Fasano, 2011; Visser, 2009; Lammers 2008; Fasano, 2008).
Uma excelente revisão de Fasano (Fasano, 2011) relaciona o impacto da ingestão de glúten e a inflamação crónica, bem como do aumento da permeabilidade do intestino e da boca. Porém, existem outras substâncias, como micropartículas exógenas, silicatos e dióxido de titânio (presentes nos aditivos alimentares, como excipientes de certo tipo de medicamentos, suplementos ou constituintes de pastas dentífricas), que têm a capacidade de se ligar a resíduos de bactérias e iões de fosfato de cálcio e, desta forma, capazes de afetar a função de barreira de proteção do corpo (Powell, 2007).
Outro possível fator causal de inflamação crónica de baixo nível, é o uso crónico de anti inflamatórios não esteróides (ácido acetilsalicílico, ibuprofeno, naproxeno). Vários mecanismos têm sido propostos, incluindo danos ao tecido conjuntivo e cartilagíneo (Campanella, 2009; Marchbank, 2008; Farhadi, 2008; Sighthorsson, 1998; Bjarnesson, 1994), as mudanças no glicocálice (Basivireddy, 2005), bem como a ativação do recetor chave (TLR). A ativação do TLR induz a produção de citocinas pró inflamatórias, que contribuem para alterar o revestimento intestinal (Watanabe, 2008).
As alterações psicoemocionais relacionadas com o stresse agudo e crónico (cortisol e noradrenalina), influenciam a permeabilidade do intestino, desencadeando a produção de tripsina e a ativação de proteases ao nível dos recetores (DeMaude, 2009; Teitelbaum, 2008). O stresse ativa o aumento da produção de mastócitos ao nível da mucosa, que induz a produção de proteases, IgE e citocinas pró inflamatórias (Santos, 2008; Gareau, 2008, Lutgendorff, 2008; Van Minnen, 2007). Induzido pelo stresse, o aumento da permeabilidade do intestino, está relacionado com o aparecimento de úlceras gástricas, doenças auto imunes intestinais (Crohn, colite ulcerosa), síndrome do colón irritável e inflamações crónicas (Forsyth, 2009; Caso 2008).
Desta forma, a inflamação de baixo grau é uma consequência lógica de um processo crónico de ativação do sistema imune inato, relacionado com o desafio a que é sujeito a longo prazo, pelos sinais de perigo que vai enfrentando. Esses sinais de perigo, dependem da capacidade de reação do sistema imunológico, associado a outros fatores, tais como o grau de contato bacteriano, hábitos tabágicos, toxinas, stresse crónico (duradouro e continuado), incluindo situações de vida, tais como problemas financeiros, morte de familiares ou doença crónica associada a um conflito conjugal não resolvido.
A inflamação de baixo grau é um estado de doença atual, causado por fatores de stresse a longo prazo, de nível baixo a moderado, comparado com os nossos antepassados, que sofreram na sua maioria, de situações de stresse intenso (ainda que por períodos reduzidos), tais como fome (agudo), sede, predadores, frio e/ou calor.
A hiperatividade do sistema imunológico inato, desafiado por episódios de stresse a longo prazo, deve ser considerada como uma forma de adaptação e proteção, embora as consequências – inflamação de baixo grau – pode ser extremamente prejudicial.
Portanto, o tratamento de pacientes que sofrem de inflamação de baixo grau, deve incidir nas causas perturbadoras e responsáveis pela respostas imunológicas ativas inatas e não tanto no sistema de inibição desta. (Figura 1) 

Figura 1 – A inflamação de baixo grau e resistência ao cortisol produz insulina, serotonina e leva à resistência à leptina; a hiperinsulinémia, durante os estados de resistência à insulina, pode depletar a leptina; oxidação pelo radical super óxido, produzido através da ativação da NADPH – oxidase; o super óxido é normalmente usado como "substância de morte" para as bactérias, fungos e vírus durante a inflamação aguda; a inflamação de baixo grau é caraterizada pela produção de super óxido crónica, levando à produção de diferentes tipos de células resistentes à insulina, à serotonina e à leptina; a libertação de cálcio para o citoplasma pode ser considerada como uma situação de sinalização não funcional da serotonina (resistência à serotonina); o cálcio é necessário para a resposta glucocorticóide, aumentando a resistência celular ao cortisol; as perturbações da serotonina, cortisol, leptina e a sinalização da insulina, explica a maioria dos sintomas associados a transtornos, como a depressão, síndrome metabólico, obesidade e arteriosclerose.

Figura 2 – Um modelo hipotético para explicar a inflamação de baixo grau; os sinais de perigo interno e externo (em cima); fatores de vulnerabilidade (no centro inferior esquerdo e centro superior direito); as prováveis manifestações patológicas (em baixo).

 

Na Génese das Doenças da Civilização
Parece provável que um processo inflamatório de baixo grau e crónico, juntamente com a resistência ao cortisol, catecolaminas, à insulina, leptina e serotonina, pode dar uma explicação para o desenvolvimento de muitas doenças, incluindo as doenças cardiovasculares, distúrbios mentais, doenças auto imunes, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e alguns tipos de cancro.
Muitos são os fatores capazes de ativar o sistema imunológico. A nutrição e o impacto da alimentação na integridade da barreira intestinal parecem desempenhar um papel central no desenvolvimento de processos de inflamação crónica de baixo grau; os ácidos gordos (DHA, AA, EPA, AO), desempenham um papel fundamental, assim como a relação entre os ácidos gordos ómega 3 e ómega 6.
A relação entre o stresse, o sistema nervoso simpático e o eixo hipotálamo – hipófise – córtico supra renal pode influenciar o sistema imunológico. A noradrenalina produzida pela ativação simpática, ativa as células imunes inatas existentes e transforma-as em pró inflamatórias, enquanto o cortisol libertado a partir do eixo hipotálamo – hipófise – córtico supra renal favorece a imunosupressão e a migração de células do sistema imunológico para os tecidos em risco e para o sistema nervoso central (Miller, 2009).
Os casos de resistência ao cortisol podem resultar num sistema imunológico que não é capaz de deixar de dar resposta, mesmo sem estar sob uma ameaça direta.
Os fatores psicossociais, tais como, a rejeição social, isolamento e traumas no início de vida, podem programar o sistema imunológico para o resto de uma vida, ameaçando a resistência ao cortisol. Um processo inflamatório de baixo grau pode ser a consequência.
A interação entre fatores endógenos e exógenos, que afetam a atividade dos eixos do stresse, conduzem à hipersensibilidade de todos os sentidos. Um fenómeno que cria enormes efeitos na sensibilização da perceção sensorial, incluindo a perceção da dor (sistema propriocetor) e hiperatividade do sexto sentido – o sistema imunológico.
A inflamação crónica e algumas síndromes dolorosas, como a fibromialgia, pode ser a consequência (Maes, 2008).
A inflamação crónica de baixo nível e a resistência às catecolaminas e ao cortisol, parecem constituir a base para o desenvolvimento das doenças modernas ocidentais. A "escolha" da doença depende da personalidade do indivíduo, combinada com suscetibilidade genética, através de mutações e/ou polimorfismos. (Figura 2 – Mishra, 2009; Jokela, 2007)

 

 

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