Psiconeuroimunologia:

Emoções e doenças crónicas

O sistema imunológico possui um dos mecanismos mais complexos do corpo humano, podendo comparar-se ao funcionamento do cérebro: possui a capacidade de processar, criar e armazenar informações, de aprendizagem e de memorização. As emoções e o stresse crónico podem interferir e serem responsáveis pelo aparecimento de doenças. Descubra como a abordagem da Psiconeuroimunologia pode explicar grande parte das doenças crónicas que afetam a civilização moderna.

O que é a Psiconeuroimunologia?

A Psiconeuroimunologia defende que os acontecimentos da vida (negativos e positivos), as emoções e os factores geradores de stresse influenciam o organismo e obrigam-no a criar mecanismos de resposta adaptativa. Todos estes factores afectam o funcionamento do sistema imunológico e poderão diminuir a sua eficiência conduzindo ao aparecimento de doenças.
Foi George Solomon (1964) que utilizou pela primeira vez a palavra Psiconeuroimunologia, para referir-se às relações entre o stresse e os problemas físicos; mas foi Ader e Cohen (1975) que desenvolveram o conceito do envolvimento das vias neuroendócrinas nas respostas imunológicas.
A Psiconeuroimunologia investiga as relações entre o comportamento, fatores psicossociais e os sistemas nervoso, endócrino e imunológico, com o aparecimento de doenças (Ader, 1980). Devido às múltiplas interrelações entre os sistemas orgânicos envolvidos no processo. também se poderá designar por Psiconeuroimunoendocrinologia.

Psiconeuroimunologia: Uma Conceção Holística do Corpo

A abordagem da Psiconeuroimunologia baseia-se na premissa de que todos os sistemas orgânicos estão interrelacionados em termos de funcionamento. Esta conceção holística defende que o sistema imunológico está integrado e é interdependente da acção e regulação dos sistemas nervoso e endócrino.
Deste modo, explica-se a importância dos fatores psicológicos no enfraquecimento do sistema imunológico, no aumento da suscetibilidade do corpo à manifestação de sintomas físicos e ao risco de doenças.
O stresse a que muitas pessoas estão sujeitas pode ser gerido da melhor ou pior forma, dependendo da personalidade e da condição psicofísica que cada um apresenta. No entanto, quando a intensidade, duração e frequência desse estímulo se perpetua e aumenta, o corpo pode atingir níveis elevados de exaustão, que põem em causa o seu equilíbrio e que poderão conduzir a manifestações mais graves, traduzindo-se por um estado de esgotamento psicofísico.
Assim, a resposta de defesa do sistema imunológico também se verifica perante alterações desta natureza e não apenas como resposta à acção de vírus e bactérias. É como se todos os sistemas orgânicos se tornassem hiperreactivos perante uma ameaça, com o objectivo de defender e proteger o corpo.
Existem alguns acontecimentos de vida geradores de stresse crónico - problemas conjugais, divórcios, morte de familiares, desemprego, problemas financeiros, familiares e de saúde, entre outros, - que poderão afectar a condição de saúde das pessoas envolvidas.
Desta forma, os acontecimentos da vida (dependendo das características e do estado psicológico do indivíduo) poderão levar a um mecanismo fisiológico de ativação do sistema nervoso central, com a respectiva resposta hormonal, o que conduz a uma mudança comportamental, que por sua vez leva a alterações imunológicas que aumentam a susceptibilidade à doença (Cohen & Herbert, 1996).

Stress Crónico: O Maior Imunosupressor


Foi Hans Selye (1936) quem descreveu pela primeira vez a relação entre o stresse crónico e o aparecimento de doenças crónicas. Ele definiu o stresse como sendo uma resposta comum (estereotipada) dos organismos a uma variedade de eventos nocivos, que incluíam trauma físico, químico, radiação e outras condições desafiadoras ou com risco de vida.
Face a uma situação de agressão física ou psíquica, o organismo responde com uma reação fisiológica adaptativa –stresse – que varia de indivíduo para indivíduo e que pode perpetuar-se por um período mais ou menos longo. Perante um estímulo continuado, o organismo promove a activação do sistema nervoso central, sistema nervoso vegetativo e endócrino, para se adaptar ao stressor. Em termos fisiológicos, a explicação prende-se com a possibilidade de tradução das emoções em respostas somáticas no eixo hipotálamo-hipófise – córtico suprarrenal (com produção de Cortisol), sendo que as descargas emocionais como o stresse interferem na sintonia entre o cérebro e os sistemas endócrino e imunológico, desencadeando uma série de transtornos emocionais, alterações psicossomáticas e alterações das funções orgânicas.
A resposta fisiológica do organismo a certos estados de stresse crónico, nomeadamente aos que conduzem a um estado de esgotamento, provoca o aumento do metabolismo celular e o consumo de micronutrientes essenciais para fazer face à resposta biológica que, caso não sejam repostos, poderão pôr em causa o funcionamento celular e conduzir a um estado de desequilíbrio orgânico e ao aumento da formação de radicais livres.
Desta forma, o stresse crónico pode gerar e/ou agravar inúmeros distúrbios orgânicos: debilidade imunológica e maior vulnerabilidade a infeções (doenças infeciosas), doenças inflamatórias, aumento ou diminuição de peso, fadiga crónica, transtornos digestivos (colite, obstipação), doenças de pele (urticária, alergias, dermatites), doenças do sistema nervoso (depressão, insónias), perturbações cardiovasculares (hipertensão arterial, arritmias, taquicardias), doenças autoimunes (artrite reumatóide), asma brônquica, neoplasias, dores crónicas, entre outros.

Emoções e Sistema Imunitário
As emoções, como parte integrante da natureza humana, têm em termos de expressividade uma correspondência fisiológica. Em função do nosso estado de humor, tudo muda no corpo, desde o simples sorriso ao franzir das sobrancelhas, ao batimento cardíaco, sudação e ao aumento da pressão arterial.
Em termos emocionais, são as emoções negativas as que acarretam maior sofrimento, quer para o próprio, quer para os outros, sendo muitas vezes e por diversos motivos (quer como defesa inconsciente da pessoa, quer por reforço da própria sociedade e contexto que a envolve) reprimidas e "escondidas". Ou seja, não aceites nem verbalizadas, o que impossibilita a sua adequada gestão e resolução. Como as emoções têm sempre de se libertar, o corpo torna-se a sua única via de expressividade e libertação.
Estamos perante o conhecido processo de somatização, bastante doloroso, física eremocionalmente.
Assim, os estados emocionais negativos, sobretudo se intensos e continuados, colocam o nosso corpo sobre enorme pressão e sobrecarga, originando ou contribuindo para o aparecimento de doenças.
A depressão e o stresse decorrentes de um luto ou de uma separação conjugal, bem como a perda de emprego, estão entre as situações que mais deflagram respostas somáticas.
As emoções associadas à falta de dinheiro, escassez de recursos, o medo do futuro e outros problemas relacionados com as finanças, segurança e estabilidade social e profissional, podem ser factores precipitantes de certo tipo de estados depressivos em indivíduos predispostos e vulneráveis que as somatizar de forma diferente.
Várias investigações concluíram que, indivíduos sujeitos a elevados níveis de stresse, associados a determinados acontecimentos de vida – desemprego, traumas, doença de familiares, problemas conjugais – revelam uma diminuição da atividade dos linfócitos, com menor resposta de proliferação. A resposta diminuída do sistema imunológico é evidente, incluindo a diminuição do número de linfócitos totais e células T e B e alterações do número e da função das células do sistema imunológico.
O efeito do humor depressivo ou triste, também influi no funcionamento do sistema imunológico, podendo diminuir a imunocompetência. A depressão clínica gera imunosupressão (Herbert e Cohen, 1993). Os indivíduos deprimidos têm menor resposta de proliferação dos linfócitos, menor actividade dos linfócitos NK (Natural Killer) e um menor número de células NA, B e T (entre outras).
Os indivíduos depressivos, com comportamentos potencialmente prejudiciais para o sistema imunológico, tais como, hábitos tabágicos, falta de exercício físico, dieta alimentar pobre em nutrientes, uso de medicamentos e/ou drogas, poderão enfraquecer ainda mais o sistema imunológico.
Porém, o inverso - o humor positivo e o pensamento positivo (Positivismo) - contribui para o aumento da proliferação de linfócitos e revelam melhor resposta imunológica.
Assim, as emoções e o estado mental, podem influenciar o modo como resistimos ou recuperamos de processos inflamatórios e infeciosos.

Personalidade e Suscetibilidade à Doença
Existem alguns estudos que evidenciam o efeito das características da personalidade do indivíduo em relação ao funcionamento do sistema imunológico. Quanto mais capaz a pessoa é ao nível da regulação emocional e na capacidade de verbalizar emoções, menos frequentes e intensas são as suas respostas somáticas.
As pessoas com tendência para o desânimo, pessimismo, humor triste, solidão e isolamento social, estados emocionais negativos e depressão, parecem revelar menor desempenho do sistema imunológico.
Os indivíduos com personalidade repressiva - que utilizam estratégias repressivas para lidar com os problemas e emoções (a repressão das emoções negativas tende a psicossomatizar-se e leva à diminuição das suas respostas imunitárias) - revelam maior pré-disposição para o aparecimento de doenças como o cancro.
Os indivíduos introvertidos são mais suscetíveis de contrair infeções respiratórias superiores.
Conclui-se por isso que, face a situações de stresse, a personalidade do indivíduo é determinante na manifestação do tipo de resposta adaptativa, podendo contribuir para que o sistema imunológico revele sinais de menor capacidade de reação e competência.

 

Leitura Recomendada: O Stress na Vida de todos os dias; Adriano Vaz Serra, Coimbra, 1999

 

 

O conteúdo deste site encontra-se protegido por Direitos de Autor.

Todos os trabalhos estão registados no IGAC

- Direcção Geral das Actividades Culturais -

É proibida a reprodução, parcial ou total, sem menção da autoria ou proveniência. 

Alternative flash content

Requirements

Get Adobe Flash player